o jão, du ratusssss

postado em Feb 14, 2026
tl;dr: encontros e ligações telefônicas para o jão, guitarrista do ratos de porão

minha história com o ratos

eu estou escrevendo este post homenagem ao jão, punk rock guitar hero, porque recentemente ele quebrou o dedo do meio da mão direita em um acidente de moto. imagina um guitarrista quebrar um dos dedos! se bem que o dedo médio da mão direita para um guitarrista destro não faz muita diferença. tony iommi, do black sabbath, não tem a falange dos dedos do meio e anelar e sempre usou uma prótese. as falanges do tony foram decepadas em um acidente de trabalho. eu odeio black sabbath, é uma banda que eu não suporto e nunca suportei ouvir. e provavelmente morrerei sem ouvir. é simplesmente chato demais. foda-se se foram eles que “inventaram o metal”. é uma pena, porque é uma banda working class. mas o fato é que esta deficiência do sr iommi foi um fator decisivo em sua maneira de tocar, baseada em power chords, e ajudou a definir o que é considerado “metal”. voltando ao jão, eu tenho certeza de que o dedo quebrado não fará diferença para ele. foi um acidente de moto com fratura exposta, mas seria bacana se tivesse sido dando um murro na cara do fascistóide roger moreira.

para quem não sabe, joão carlos molina esteves, ou simplesmente jão, é o guitarrista e um dos fundadores da banda de hardcore ratos de porão.

eu diria que o jão representa o que ainda vive do espírito punk: é tosco, arruma confusão, bebe, xinga e parte pra briga.

é preciso dizer que o ratos de porão é minha banda favorita, ou pelo menos foi por um grande período da minha vida, junto com slayer e kreator. os dois discos que eu mais ouvi são, disparados, brasil – do ratos de porão – e reign in blood – do slayer. eu sei as letras, os riffs, tudo sobre esses dois discos. é interessante que eu nunca tive os discos, os lps, os vinis. porque na minha adolescência eu não tinha dinheiro para comprá-los. e também não havia um toca discos que prestasse em casa. o que tinha só funcionava um canal. então eu tinha fitas cassete que eu ouvia repetidamente, diariamente. quem gravava essas fitas era o velhote (mais sobre ele em um outro post). eu dava as fitas e o velhote gravava os plays para mim.

eu também tinha uma camiseta do brasil, que era a capa do disco, desenhada pelo marcatti. eu usei essa camiseta até ela se desfazer. lembro bem do dia em que eu a comprei. era um sábado nublado, e eu morava em santo andré. no paço municipal acontecia aos finais de semana uma feirinha ao ar livre, que chamávamos de “feira hippie”. até hoje quando eu vejo uma feira dessas eu chamo de feira hippie. não sei se as novas gerações chamam estas feiras assim. a feira de camden town, em londres, por exemplo, é uma enorme feira hippie.

dentre as barraquinhas desta feira em santo andré, tinha uma que vendia camisetas de bandas, principalmente de bandas de metal e de punk rock. foi lá que comprei a minha camiseta do ratos. eu amava essa camiseta.

nessa época eu cantava em uma banda, e o meu sonho era tocar músicas do ratos, ou fazer músicas parecidas com as do ratos, ou músicas inspiradas pelas músicas do ratos. eu tinha 14 anos. o único problema era que o resto do pessoal da banda odiava ratos de porão. a nossa banda era tosca, mas um dos guitarristas tinha pretensões de ser um virtuoso do metal, o outro sempre ficava em cima do muro, o baterista se dizia fã dos ramones, mas não de ratos, e o baixista era um mau caráter que sonhava ser o james hetfield. por capricho do destino, décadas depois eu vi um post do guitarrista pseudo-virtuoso elogiando ratos de porão!

em 1990 o ratos estava “em alta”, porque beber até morrer tocava, de vez em quando, na rádio, na 89 fm de são paulo. tocava na programação normal, não em um programa específico para este tipo de música, como o “comando metal”, do walcir chalas. aliás, não havia um espaço o tipo de música que o ratos fazia e ainda faz, porque geralmente o pessoal do metal não suportava punk rock / hardcore, e embora o ratos já fosse nessa época uma banda de crossover, isso não ajudava. mas, dado este “sucesso” do ratos, eu consegui convencer o resto da banda a tocarmos beber até morrer, e a canção – que está longe de ser a minha preferida do ratos – integrou nosso set por algum tempo.

isso tudo foi lá pros idos de 1989 - 1990.

um guitarrista na náiti

fast-forward para 2006, eu tinha uma banda de electro rock, que era uma encenação, tentando surfar na onda de cansei de ser sexy. tinhámos seis músicas, que foram compostas com um controlador midi m-audio e sei lá que software que havia na época. eu não fiz nada para as músicas, não fiz letras, não fiz arranjos, nada. nós gravamos as seis faixas em um estúdio na lapa, em são paulo, que era onde muitas bandas independentes de hardcore gravavam. como eu não tinha nada para fazer nas sessões de gravação e mixagem, eu paguei a minha parte do valor do estúdio e apareci só uma vez lá. as faixas ficaram boas, bem mixadas e produzidas e a banda teve um pequeno sucesso, com shows em são paulo, no rio de janeiro e em florianópolis.

era uma encenação porque não tocávamos nada. era tudo eletrônico, e nos shows dáva-se um play na base e a vocalista, que atendia pelo nome artístico de bruna broto displicente – mais sobre ela em outro post – cantava por cima. só que nos shows nós levávamos instrumentos reais – bateria (com peles de estudo, para não fazer som algum), guitarra e baixo. tudo plugado em lugar nenhum e desligado. fingíamos que tocávamos. de uma maneira bastante convincente, eu diria. eu “tocava” guitarra e baixo, ia alternando. mais de uma vez vieram pessoas do público falar para mim, no intervalo entre cada música, que não “estava dando para ouvir a guitarra”. era um exercício de cara-de-pau. fingíamos também que não ouvíamos o que o público dizia.

além das seis músicas, fazíamos um “cover”, de unbelievable, do emf. se em nossas músicas pelo menos a broto displicente cantava por cima da base, _unbelievable_ era puro playback. eu pegava a guitarra, fingia que tocava e fingia que cantava.

nunca tivemos problemas! era divertido e a maior parte do público sacava o que estava acontecendo já no meio da primeira música e simplesmente se divertia, porque as músicas eram muito boas e divertidíssimas.

nessa época íamos quase que semanalmente em uma balada furadaça, onde não ia quase ninguém. o lugar se chamava “clube praga”, na rua turiassu 483, no bairro das perdizes, em são paulo. embora o praga fosse miadaço, e na maior parte do tempo só tinha a gente e mais meia dúzia de gatos pingados, se você ficasse até as 3 da manhã alguns rock stars geralmente apareciam, incluindo nando reis (a filha dele – sophia reis – as vezes era dj no praga – tocando para ninguém – e sempre que o nando chegava na pistinha do praga ele entrava dando um rodopio), badauí (vocalista do cpm 22) e, claro, o jão, que era habitué do praga.

eu sempre ia com uma camiseta feita em casa, presente do meu amigo renato, do bezerra da silva. e o jão sempre vinha falar comigo, como se fosse a primeira vez, que o gordo tinha um moletom do bezerra da silva, que ele mesmo tinha feito.

eu tinha um affair com a broto displicente. uma relação complicada. às vezes nos dávamos muito bem e ficávamos juntos por um tempo considerável, até que brigávamos, e não ficávamos mais. depois de um tempo, tudo se repetia: às vezes nos dávamos muito bem e ficávamos juntos por um tempo considerável, até que brigávamos, e não ficávamos mais. nós nos víamos sempre, independentemente de estarmos juntos ou não.

numa dessas entressafras de ficadas, eis que um romance surgiu entre jão e a broto displicente! o jão ficou super apaixonado por ela. deu o telefone da casa dele para a broto, que forneceu para o resto da banda. pra que… ligávamos para a casa do jão com frequência, mas nunca conseguimos falar com ele. sempre era alguma outra pessoa que atendia. até que um dia ligamos e uma senhora atendeu. perguntamos se o jão estava e ela disse que não. ai perguntamos: “e quem é a senhora?” ao que ela respondeu:

eu sou a mãe do jão, du ratusssss

depois disso paramos de ligar, porque ligávamos de madrugada, de manhã, de tarde, sempre que lembrávamos que tínhamos o telefone do jão, du ratusssss.

o affair dos dois não durou muito e eu nunca mais vi o jão. depois da dissolução da nossa banda, eu perdi o contato com a broto displicente. sei apenas que ela se casou com um austríaco e hoje vive em rostock, na alemanha, e tem um filho.

o que tocou enquanto eu escrevia este post

  • meu mundo é hoje (eu sou assim) - paulinho da viola
  • escândalo - angela ro ro
  • jogo de cintura - joyce moreno & dori caymmi
  • na baixa do sapateiro - gal costa
  • ne te regarde pas - zaho de sagazan
  • minha voz, minha vida - gal costa
  • je rêve - zaho de sagazan
  • da maior importância - gal costa
  • tudo em casa - joyce moreno
  • pérola negra - gal costa