cpf na nota, fotos pós-chernobyl, andré conti, bbs, podcasts e hardcore. meu pequeno relato e breve convivência digital com a chamada "elite" cultural - um termo mais mentiroso do que as mentiras que esse pessoal conta

postado em Jan 19, 2026
tl;dr: o dia em que eu descobri links com um passado remoto de bbs através de um podcast

esse post é um clickbait?

talvez! e esta é uma das belezas a respeito dele. full disclosure: eu mal conheço o andré conti, não leio o que ele escreve e o nosso contato foi muito breve, do meio para o final da década de 1990. foi quase que puramente digital, com um único encontro presencial e uma chamada telefônica. duvido que o andré (posso chamá-lo assim, só pelo primeiro nome?) se lembre de mim - até mesmo porque ele deve ter outras coisas muito mais importantes para se preocupar.

eu mesmo me lembrava dele somente às vezes, em momentos bastante específicos. mas eu tenho uma memória boa. e a vanessa barbara eu não conheço. nunca a vi (não que eu saiba) e provavelmente não frequentamos os mesmos lugares (não que eu saiba) quando eu morava em sp. também nunca li um dos 11 livros dela. mas mesmo assim eu tenho uma ou duas coisas pra falar sobre o episódio.

quando o passado insiste em voltar

o passado pode ser um lugar assustador e alguns ditados são atemporais. por mais clichê que eles sejam, eles carregam certas verdades. como o clássico “a vingança é um prato que se come frio”. Passou mais de uma década, mas parece que para a vanessa algo bom está acontecendo!

mas do que isso se trata? eu fiquei sabendo do causo todo ontem, mais de um ano depois que ele veio a tona para o grande público, através de um episódio do podcast “rádio novela apresenta” no spotify. o episódio chama-se cpf na nota?, e a segunda parte dele é dedicada ao relato da vanessa sobre a série de abusos que ela sofreu em seu casamento com o andré. eu ouvi por acaso. acabou um podcast que eu estava ouvindo e este episódio entrou automaticamente.

no podcast a vanessa não nomeia o andré. de maneira que depois de ouvir eu fui procurar mais informações sobre os envolvidos e elas estão por todos os lugares:

e logo que eu vi o primeiro site eu pensei: “caralho, eu conheço - ou conhecia - esse mano (andré)!” e voltei aos idos 1990, para a metade desta década. mais especificamente para 1996. eu sei porque foi o ano do primeiro missão impossível, e eu fui ver este filme com uma pessoa que eu conheci no mesmo ambiente onde eu conheci o andré. e este “ambiente” era uma bbs de usuários de macintoshes.

bbs - a internet antes da internet

em 1996 a internet no brasil era coisa para bem bem poucos, como mostrado aqui. quase não havia acesso, quanto mais acesso broadband. era tudo pelo telefone, por via discada. o que pegava era algo chamado bbs (bulletin board system). era onde os descolados digitais, os antenadinhos, se encontravam virtualmente para quebrar o pau em fóruns, trocar mensagens e conspirar digitalmente contra outros membros da bbs. uma grande diferença com relação a internet era que a bbs era muito menor e era fácil conhecer as pessoas IRL (na vida real).

e foi numa dessas bbs que eu “conheci” o andré. eu não me lembro em qual. eu acessava algumas. mas foi ou na da caps, que era uma revendedora de produtos da apple, ou provavelmente em uma outra que eu não lembro o nome, mas que era mais cool, e tinha como sysop um cara que eu também não me lembro o nome, que morava em alphaville e o pai tinha uma loja da alphagraphics, que talvez fosse a primeira, não sei… sei que a loja era na faria lima. ou seja, era gente de muito dinheiro. tudo playboy. eu tinha um crush na irmã desse cara, que eu também não me lembro o nome, e era bem correspondido. só que o problema era que enquanto ela morava em alphaville, eu morava na periferia da periferia de são paulo, em são mateus, e não tinha, literalmente, um centavo! mas eu tinha um macintosh! como? antes de responder isso, vale dizer que esta bbs era gratuita mas virou paga. havia um tier gratuito que possibilitava acessar por 15 minutos por dia (ou seria por semana?). quinze minutos em uma conexão discada dava mal para carregar a página inicial.

quem eu era em 1996

em 1996 minha vida ia de mal a pior. eu vivia em uma precariedade gigantesca. eu não tinha dinheiro, mal tinha o que comer, mais de uma vez eu e meu pai - nós trabalhávamos juntos - ficamos a pé porque o voyage que nós usávamos (era um carro emprestado) ficou sem gasolina. o meu sonho era ser designer gráfico. eu tinha 20 anos de idade. eu era teimoso. o mundo falava não e eu insistia e persistia. como eu disse, eu morava em são mateus (mais precisamente no jardim santa adélia). um lugar tenebroso. sem telefone. uma casa sem acabamento, que minha família mal e mal colocou de pé. um lugar embolorado. ratos. vivendo de “gatos”, sem pagar nem água e nem luz. mas minha vida era praticamente toda em santo andré. eu tinha um “escritório” de design no fundo de santo andré, um bairro chamado “condomínio maracanã”. periferia pesada. o “escritório” era um quartinho mofado, de favor, nos fundos de uma casa, que pertencia a sogra do meu sócio. a empreitada era eu, meu pai e esse sócio. nós não tínhamos contatos, não tínhamos experiência e não tínhamos dinheiro. era a receita perfeita para o fracasso… e foi.

mas nessas nós tínhamos esse sócio que entrou com os equipamentos e convenceu a sogra a deixar nós usarmos o quartinho dos fundos como escritório. era um lugar ridiculamente pequeno. mais do que isso: ele e a família se mudaram de porto alegre para santo andré para mergulharem – e se afogarem – nesse grande empreendimento. e foi assim que eu tive acesso ao meu primeiro mac: era um dos equipamentos da lista que o sócio comprou. um fantástico performa 6300, que era o mac mais barato disponível. se ainda hoje ter um mac é caro, naquela época então era para bem poucos. além do preço do computador havia a dificuldade para conseguir software por vias alternativas, o que te obrigava a conhecer outros usuários de mac que concordassem em te fornecer cópias dos programas ou você tinha que comprar os programas originais, em uma época onde não havia assinatura de software, ou saas.

uma das vantagens desse “escritório” era que tinha telefone. o telefone residencial da sogra do meu sócio. tínhamos uma extensão no escritório. para quem é jovem, vale lembrar que em 1996 linhas telefônicas eram caras. ou você entrava em uma fila interminável da telesp, ou comprava uma linha de alguém pelo preço de um carro 0 km ou alugava a linha por um valor mensal extorsivo.

e foi assim que eu consegui acessar ao mesmo tempo a bolha dos poucos usuários de mac e o universo das bbs. essas bbs eram antros de playboys, de gente bem nascida, de usuários de computadores caríssimos, conectados com a high society e, mais do que tudo, poços profundos de egos inflamados.

e daí?

qual é a relação disso tudo com a lista de emails “fotos pós-chernobyl”? é que o relato da vanessa descreve com bastante precisão o que acontecia na bbs! era um clube de gente mimada, onde um falava mal do outro, onde intrigas eram criadas, reputações destruídas e relações de poder construídas. o comportamento do andré é exatamente o comportamento que havia na bbs. mais, o próprio andré descreve isso - para vermos como esse tempo de bbs o marcou - em um artigo para a folha de são paulo em 05 de janeiro de 2011. nas palavras do andré:

"O mais impressionante, todavia, era o sentimento de comunidade.
Pertencer a uma BBS significava pertencer a um clube restrito,
com regras e linguagem próprias. Assim como na internet hoje,
já havia usuários lendários, rixas históricas entre grupos e BBSs,
movimentos artísticos, políticos, o diabo. E, se hoje a seção de
comentários dos sites e dos blogs parece uma porta de banheiro
de rodoviária, imagine como procederam os primeiros anônimos da rede."

era exatamente isso. a tal chamada “elite cultural” da qual parece que o andré faz parte já mostrava esse comportamento nas bbs da vida, com estratégias muito semelhantes as descritas pela vanessa. pergunta: será que o andré já esteve em um banheiro de rodoviária? esse pessoal do itaim bibi era muito bom, já naquela época, em pagar de revolucionários, de representantes da real esquerda, do alto de suas coberturas nos endereços mais caros de são paulo.

o pessoal do itaim bibi

a única vez que eu encontrei na vida real esse pessoal da bbs foi em um dos vários encontros presenciais que eram organizados. foi em um bar do itaim bibi. eu nem tinha roupa para ir. fui, não bebi e não comi nada, e voltei para a zona leste de são paulo de transporte público, com a mais certeza ainda de que eu não pertencia aquele mundo e nem queria pertencer. nesse dia o andré me emprestou um cd, que eu nunca devolvi, de um banda de hardcore chamada earth crisis. era um ep com quatro músicas cujo título era “all out war”, de 1992. na verdade o cd nem era dele, era do (meio) irmão dele, um maluco que, para variar, se achava pra caralho no reino da bbs (acho que o nome dele era marcelo), e era uma espécie de “capitão do punk rock / hardcore” desse pequeno reino digital.

enfim, tudo isso para dizer que parece que a bbs acabou, mas que o comportamento de alguns continua sendo o mesmo de 1996!

o que tocou enquanto eu escrevia este post

  • plasticine - placebo
  • your eyes - bombay bicycle club
  • mr. robinson - the lemonheads
  • in bloom - nirvana
  • gentle sons - the pains of being pure at heart
  • blindfold - the bats
  • primitive notion - new order
  • pretty in pink - the psychedelic furs
  • the baskervilles - tokyo police club
  • bad idea! - girl in red
  • connected - stereo mc’s
  • the thing - brandenburg
  • milk it - nirvana
  • avc - textile
  • it’s thunder and it’s lightning - we were promised jetpacks